Governo português apresenta o seu projecto de IA: Amália
Portugal apresentou oficialmente a Amália, o primeiro grande modelo de linguagem criado especificamente para o português europeu, desenvolvido por universidades e centros de investigação nacionais com um investimento inicial de 5,5 milhões de euros.

Portugal tem agora a sua própria inteligência artificial. Chama-se Amália — acrónimo de Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial — e foi apresentada oficialmente como uma aposta estratégica na soberania digital do país, ou seja, na capacidade de desenvolver tecnologia própria e reduzir a dependência de soluções estrangeiras.
A distinção em relação ao que já existe lá fora é relevante: ao contrário do ChatGPT, que é uma aplicação construída sobre os modelos de linguagem da OpenAI, a Amália é o próprio modelo de linguagem. Isto significa que pode servir de base para criar diferentes ferramentas, aplicações e assistentes virtuais adaptados à realidade portuguesa.
Quem está por trás do projeto e como foi construído
O desenvolvimento da Amália demorou 18 meses e envolveu investigadores da Universidade Nova de Lisboa, do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Coimbra, da Universidade do Porto, da Universidade do Minho e da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Ao todo, participaram cerca de 30 especialistas no modelo-base e mais de 50 investigadores em áreas específicas.
O treino foi feito com recurso a supercomputadores nacionais e europeus, incluindo o Deucalion, o MareNostrum 5 e sistemas EuroHPC. Nesta primeira fase, o modelo conta com nove mil milhões de parâmetros e foi alimentado com milhares de milhões de palavras em português europeu, incluindo dados do Arquivo.pt. Por ser multimodal, consegue trabalhar com texto, fala, imagens e documentos digitalizados, e suporta tarefas como resposta a perguntas, tradução, pesquisa documental e descrição de imagens.
Para que vai servir e onde pode ser encontrada
As aplicações previstas abrangem várias áreas. Na Administração Pública, a Amália deverá ser integrada no portal Gov.pt como assistente virtual para esclarecer dúvidas dos cidadãos. Na Educação, estão pensadas ferramentas de apoio a professores. Na Cultura, assistentes para museus e monumentos. E na área da soberania, soluções de apoio à decisão na Marinha.
O modelo será disponibilizado em código aberto e pode ser descarregado através do portal ia.gov.pt, que redireciona para a plataforma Hugging Face. A licença Apache 2.0 permite que cidadãos, empresas e instituições usem, modifiquem e distribuam o modelo, incluindo em projetos comerciais.
O investimento inicial foi de 5,5 milhões de euros, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência. Está ainda prevista uma segunda fase de desenvolvimento no valor de 1,5 milhões de euros, que deverá fazer evoluir o modelo até aos 22 mil milhões de parâmetros e adicionar novas capacidades até 2027.
Os responsáveis pelo projeto reconhecem que, como qualquer sistema de inteligência artificial, a Amália pode cometer erros. O modelo foi submetido a testes de robustez, filtragem de dados e mecanismos de mitigação de risco para reduzir respostas incorretas, discriminatórias ou perigosas — uma ressalva honesta num lançamento que, de resto, representa uma estreia inédita para a tecnologia nacional.
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